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Técnicas de estudo que funcionam (e as que não)
Toda semana aparece alguém no cursinho com a técnica definitiva: grifar em quatro cores, mapa mental de duas folhas, resumo do resumo. Algumas dessas coisas seguram conteúdo até novembro e outras só ocupam a tarde. Aqui está o que as comparações mostram e como decidir qual técnica usar em cada momento do assunto.
Resposta curta
As duas técnicas que mais rendem por hora de estudo são se testar de caderno fechado e espalhar o estudo por vários dias. Grifar, reler e resumir são as mais usadas e as que menos seguram conteúdo quando são a única coisa que você faz.
As que funcionam
Em 2013, John Dunlosky e colegas publicaram uma revisão que juntou o que se sabia sobre dez técnicas de estudo comuns e deu a cada uma uma nota de utilidade: alta, moderada ou baixa. A nota não mede tamanho de efeito. Ela responde a outra pergunta: essa técnica se sustenta com tipos diferentes de estudante, com materiais diferentes, em provas diferentes, ou só num canto estreito de condições?
Duas ficaram com utilidade alta. Uma é se testar: responder de memória antes de conferir. A outra é distribuir o estudo: espalhar as passagens pelo mesmo conteúdo por dias diferentes em vez de empilhar tudo numa sessão.
Repare que nenhuma das duas fala do material. As duas falam do que você faz com ele e de quando você faz. Por isso elas atravessam matéria: dá para se testar em biologia, em física e em espanhol, e dá para espalhar qualquer uma dessas por seis dias.
Sobre a primeira, Roediger e Karpicke publicaram em 2006 o experimento que virou referência. Estudantes liam um texto de divulgação científica e depois eram separados: um grupo relia, o outro fazia testes de memória sem consultar. Cinco minutos depois, quem tinha relido lembrava mais. Uma semana depois a ordem se invertia, com folga a favor de quem tinha se testado. Uma semana é o prazo que interessa a quem faz prova em novembro. Os quatro formatos de teste que funcionam em matérias diferentes estão no guia de revisão ativa.
Sobre a segunda: as mesmas três horas de genética rendem mais em seis blocos de meia hora espalhados por dois meses do que numa tarde de sábado. Os intervalos estão no guia de revisão espaçada, e o motivo de eles crescerem está no guia da curva do esquecimento.
Outras três técnicas ficaram com utilidade moderada e valem para cursinho. Intercalar é a mais fácil de aplicar hoje: misturar tipos de exercício na mesma lista em vez de fazer vinte questões seguidas de progressão aritmética. Quando as vinte são de PA, da terceira em diante você acerta sem ler o enunciado direito, porque já sabe qual fórmula entra. Na prova as questões vêm embaralhadas e a primeira decisão é descobrir de que assunto aquilo é. Uma lista misturada de PA, PG e função exponencial parece mais difícil e é: você erra mais no treino e chega melhor na prova.
As outras duas são parentes. Autoexplicação é parar no meio da resolução e dizer por que aquele passo. Interrogação elaborativa é fazer a mesma pergunta sobre um fato: por que o Estado Novo veio em 1937 e não antes? Custam poucos segundos e mudam o que você estava fazendo, que era passar os olhos.
Utilidade moderada quer dizer que a base de evidência é mais estreita: menos variedade de estudante, de material e de situação testada. Use as três quando couberem. Só não troque as duas de cima por elas.
As que rendem pouco pelo tempo que custam
Grifar, sublinhar, reler e resumir ficaram com utilidade baixa na mesma revisão. São também as técnicas que mais ocupam o tempo de quem estuda para o ENEM, e essa combinação explica muita tarde perdida.
O grifo tem dois problemas. Você grifa durante a primeira leitura, quando ainda não sabe o que é importante, e o resultado costuma ser meia página amarela. E o caderno grifado é lido depois do mesmo jeito que o caderno limpo, então o grifo não muda nada na revisão. O que salva o marca texto é ele virar entrada: se cada trecho amarelo vira uma pergunta que você responde de caderno fechado uma semana depois, o grifo virou índice e o trabalho acontece depois dele.
A releitura engana de um jeito específico. Na segunda passagem cada frase chega antes de você terminar de ler, o material entra sem atrito, e você lê esse conforto como domínio. Na prova ninguém te entrega o texto. Isso não proíbe reler: é assim que você conhece o material na primeira vez, e é o que você faz depois de errar uma revisão, para reconstruir o que faltou. O erro é usar a releitura no lugar do teste.
Resumir depende de você já saber resumir. Quem resume bem tira proveito. Quem copia frases da apostila em outra ordem gastou quarenta minutos copiando e saiu com um material mais curto para reler. Tem um teste rápido: feche a apostila e escreva o resumo de memória. Se não sai nada, o que você ia fazer era cópia.
Mapa mental não estava entre as dez técnicas daquela revisão, então não tem nota lá. Ele é bom no lugar em que quase ninguém usa, que é organizar um assunto novo e ver como as partes se ligam, uma vez, em vinte minutos. É ruim no lugar em que quase todo mundo usa, que é segurar o assunto por meses, porque um mapa pronto é material de leitura como qualquer outro. O jeito de fazer mapa mental render é redesenhá-lo de memória duas semanas depois e comparar com o original. Aí ele parou de ser desenho e virou revisão ativa.
Estilos de aprendizagem merecem um parágrafo porque a ideia circula muito no cursinho: cada um seria visual, auditivo ou cinestésico e deveria estudar no seu estilo. O que existe é a circulação da ideia. Falta evidência de que casar o material com o estilo preferido melhore o resultado. Preferência existe, e você provavelmente prefere videoaula a apostila. Preferir um formato não é o mesmo que aprender mais nele. O custo escondido é você descartar justamente o formato que a prova cobra: a prova do ENEM é texto escrito, com enunciado longo, e ninguém escapa de treinar leitura.
Passar a matéria a limpo com régua e três canetas fecha a lista. São duas horas em que o conteúdo passa pela mão e não pela cabeça, e no fim você tem um caderno bonito e a mesma memória de antes.
Como escolher a sua
O modelo mental errado é tratar as técnicas como concorrentes, uma vencendo as outras num ranking. Elas ocupam estágios diferentes do mesmo assunto, e a pergunta útil é em que estágio o assunto está.
- Entrar. Aula, apostila, videoaula. Aqui reler e grifar não são erro, é assim que você conhece o material pela primeira vez. O erro é parar aqui e chamar isso de estudo.
- Organizar. Uma vez por assunto e curto: esquema, mapa, resumo seu de meia página. Serve para ver como as partes se ligam. Vinte minutos, não uma tarde.
- Testar. Feche tudo e produza a resposta: folha em branco, exercício refeito, explicar em voz alta. É aqui que você descobre o que não sabe, e é o estágio que quase todo mundo corta quando o tempo aperta.
- Espaçar. O mesmo teste de novo, 1, 3, 7, 16, 35 e 70 dias depois da aula. Cada volta custa de dois a cinco minutos.
Um exemplo com números. Você tem quarenta minutos e um capítulo de genética. A versão que parece produtiva é gastar os quarenta relendo o capítulo três vezes. A outra divisão dos mesmos quarenta minutos: quinze lendo, cinco montando o esquema das duas leis de Mendel e vinte de caderno fechado, quebrados em quatro voltas de cinco minutos em quatro dias diferentes. O total é igual. O que muda é que a segunda versão te avisa, na terceira volta, que você trocou a segunda lei pela primeira, e nesse ponto você ainda tem meses para consertar.
O tamanho do recorte manda mais que a escolha da técnica. Teste só funciona em tópico pequeno. "Ondulatória: efeito Doppler" é um tópico; "física" não é. Se a sua volta de caderno fechado está levando quinze minutos, o problema está no recorte, e a correção é quebrar o tópico em dois.
A matéria muda o formato do teste e mais nada. Em matemática, física e química, testar é refazer uma questão com a resolução virada para baixo. Em biologia, história e geografia, é folha em branco ou explicar em voz alta. Em inglês e espanhol, flashcard de vocabulário. Os intervalos são os mesmos nos três casos.
Para saber se a sua escolha está funcionando, desconfie da sensação durante o estudo. Ela mente sempre na mesma direção: o que é confortável parece estar dando certo. Use dois sinais de fora. O primeiro é quanto sai da folha em branco na semana seguinte, comparado com o caderno. O segundo é o placar do simulado por assunto. Duas semanas anotando esses dois números dizem mais sobre o seu caso do que qualquer ranking de técnicas, inclusive este.
Se você for trocar uma coisa só nesta semana, troque a ordem: teste antes de reler, e releia só o que a folha em branco mostrou que faltou.
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Grifar o livro adianta?
Pouco, quando é a única coisa que você faz. Ajuda se cada trecho grifado virar uma pergunta que você responde de caderno fechado depois.
Mapa mental funciona?
Funciona para organizar um assunto novo. Para segurar esse assunto por meses, não.
Qual técnica rende mais por hora?
Se testar de caderno fechado em intervalos crescentes. Foram as duas técnicas com nota de utilidade alta na comparação de Dunlosky e colegas em 2013.
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